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Natividade de Nossa Senhora: quando a esperança começa a nascer

  • há 10 minutos
  • 4 min de leitura

Hoje, a Igreja celebra a Natividade de Nossa Senhora. Mas, à luz da fé, não estamos simplesmente diante do nascimento de uma menina. Estamos diante do sinal visível do amor e da misericórdia de Deus.

A Mãe de Jesus nasce dentro de uma história que o Pai já vinha preparando. Seu nascimento está relacionado ao grande plano da salvação que encontrará em Jesus Cristo sua realização plena. Por isso, a Natividade de Maria é uma celebração profundamente cristocêntrica: não celebramos Maria afastando-nos de Jesus. Celebramos Maria porque Deus quis que ela tivesse um papel singular na vinda do Salvador.




São João Paulo II, na Redemptoris Mater, recorda que, quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher. E essa mulher é Maria. Antes do nascimento de Jesus em Belém, antes da Anunciação, antes mesmo de Maria pronunciar seu "sim", sua existência já estava inserida no movimento da história da salvação.

Por isso, a tradição cristã contempla Maria como a aurora da salvação. A aurora não é o sol, mas anuncia que o sol está chegando. Maria não é a Salvação — a Salvação é Cristo. Mas sua presença anuncia, acolhe e prepara a chegada daquele que é o Sol que ilumina o mundo.

São João Damasceno, grande pregador da Natividade de Maria no século VIII, ajuda-nos a compreender essa alegria ao falar da festa como a "natividade da alegria". E talvez seja exatamente isso que celebramos: o nascimento de Maria é o momento em que, dentro da história humana, a esperança começa a ganhar um rosto. Deus está conduzindo silenciosamente a história para o encontro definitivo da humanidade com seu Filho.

As leituras de hoje nos ajudam a olhar para esse mistério. O profeta Miqueias anuncia que de Belém virá aquele que governará Israel e fala daquela que dará à luz. O Evangelho de Mateus apresenta a genealogia de Jesus e nos conduz até Maria, mostrando que Cristo entra verdadeiramente na história humana. A mensagem é clara: o nascimento de Maria está ligado ao nascimento do Salvador. Deus vai tecendo, geração após geração, uma história que desemboca em Jesus.

Mas existe algo ainda mais bonito: Maria nasceu como uma pessoa humana.

Ela nasceu, cresceu, aprendeu, viveu em uma família, enfrentou dificuldades, precisou fazer escolhas, discernir e confiar. A santidade não a afastou da condição humana. Pelo contrário: foi dentro de uma existência humana concreta, simples e silenciosa, que Deus realizou algo extraordinário.

E é aqui que a história de Maria pode tocar profundamente a nossa própria história.

A tradição cristã identifica Joaquim e Ana como seus pais. Segundo o antigo Protoevangelho de Tiago, eles enfrentaram a dor de não ter filhos e colocaram diante de Deus aquilo que não podiam resolver sozinhos. Rezaram. Esperaram. Confiaram.

Essa tradição nos apresenta uma família que aprendeu a entregar a Deus aquilo que lhe causava sofrimento e a esperar dele misericórdia.

E que família não tem alguma coisa que precisa colocar nas mãos de Deus?

Há famílias que esperam por um filho. Outras esperam pela recuperação de alguém que amam. Algumas esperam por uma reconciliação. Outras carregam dificuldades financeiras, conflitos, perdas, preocupações com os filhos ou com os pais. Há quem espere por uma oportunidade, por uma resposta, por uma mudança que parece nunca chegar.

A história de Joaquim e Ana nos recorda que a espera não significa abandono.

Naquela família, a esperança foi cultivada na oração. E é bonito imaginar que Maria cresceu em um ambiente no qual a fé não era apenas uma palavra, mas uma maneira de viver: uma família que confiava em Deus, que rezava, que aprendia a esperar, que reconhecia que a vida não estava inteiramente sob seu controle.

Maria foi fruto dessa história.

Antes de ser a mulher que diria "sim" ao anjo, ela foi uma criança acolhida por uma família. Antes de ser a Mãe do Salvador, foi filha. Antes de estar aos pés da cruz, houve uma vida inteira sendo construída no silêncio, na simplicidade e na fé.

E isso nos ensina algo muito importante: Deus também trabalha nos pequenos começos.

Quando Maria nasceu, ninguém sabia o que aquela criança representaria. Aos olhos do mundo, era apenas uma menina entre tantas meninas de Israel. Mas Deus conhecia sua missão e aquele nascimento silencioso está relacionado ao acontecimento que mudaria para sempre a história da humanidade.

Quantas vezes também olhamos para nossa própria vida e pensamos que pouco está acontecendo? A Natividade de Maria nos convida a acreditar nos começos que ainda não conseguimos compreender. A vida de Maria começou de maneira simples. Sua missão estava escondida. Sua grandeza ainda não era conhecida. Mas Deus já estava conduzindo sua história.

O Concílio Vaticano II nos ensina que Maria entrou de maneira singular na história da salvação e que nela a Igreja contempla um modelo de fé, esperança e caridade.

Por isso, celebrar seu nascimento também pode nos levar a olhar para o nosso próprio nascimento. Por que eu nasci? Para que Deus me colocou neste mundo? Qual é a missão que Ele confiou a mim?

Assim como Maria nasceu dentro de uma história maior do que ela mesma, nossa vida também não é um acontecimento sem propósito. Talvez ainda não compreendamos completamente aquilo que Deus deseja realizar através de nós. Mas podemos confiar.

Porque a Natividade de Maria nos recorda que Deus sabe transformar pequenos começos em grandes histórias.

Hoje, portanto, não celebramos apenas o nascimento de Maria.

Celebramos a esperança que começa a nascer.

Celebramos a aurora que anuncia o Sol.

Celebramos a mulher que um dia dirá: "Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra."

E celebramos, sobretudo, a certeza de que, quando Deus conduz uma história, aquilo que parece pequeno aos nossos olhos pode carregar dentro de si uma graça imensa.

Maria nasceu. A esperança ganhou um rosto. E o mundo começou a caminhar, silenciosamente, para o encontro com Cristo.


Silvana Lima (Pascom)

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