Fé e ação para navegar em um mundo em constante mudança
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A Igreja Matriz da Paróquia da Ressurreição do Senhor recebeu, na última quarta-feira, dia 19, mais uma vivência promovida pelo Grupo de Formação da Paróquia. O encontro teve como convidado o padre Clóvis Cabral, jesuíta, que conduziu uma reflexão sobre a dimensão social da fé e do agir cristão no mundo, buscando aproximar a experiência de fé dos desafios da realidade contemporânea.
A atividade foi aberta com uma oração em intenção de Ana Tourinho, paroquiana muito querida, falecida naquele dia. Todos os presentes rezaram uma Ave-Maria, colocando diante de Deus sua vida e sua memória.

Em seguida, padre Clóvis iniciou a reflexão sobre princípios que também norteiam a missão do Centro de Estudos e Ação Social (CEAS), associação sem fins lucrativos fundada pela Companhia de Jesus, em 1967, e integrante da Rede Jesuíta de Justiça Socioambiental. Atua na Bahia junto a comunidades e movimentos sociais, fortalecendo sua autonomia e organização e contribuindo para a transformação da realidade e o enfrentamento das desigualdades sociais.

A atuação do CEAS tem como base o diálogo entre saberes, aproximando conhecimentos populares, científicos e políticos, além das experiências dos povos do campo e da cidade, para compreender e transformar a realidade.
A partir dessa proposta, a reflexão conduzida pelo sacerdote buscou responder a uma questão central: como navegar em um mundo tão volátil e dinâmico sem perder de vista aquilo que Jesus propôs desde os primórdios da Igreja: a construção do bem comum, baseada no respeito, no diálogo e na caminhada conjunta?

Para animar a compreensão desse cenário de constantes transformações, os participantes cantaram a música "Como uma Onda", de Lulu Santos, cuja conhecida frase “tudo muda o tempo todo no mundo” serviu como ponto de partida para pensar os desafios enfrentados pelos cristãos em uma sociedade que se transforma cada vez mais rapidamente.
Padre Clóvis destacou que a fé não pode ser vivida de maneira alheia à realidade. É preciso olhar para o que acontece no mundo, reconhecer a própria participação nele e, à luz do Evangelho, discernir caminhos capazes de contribuir para sua transformação, visando o bem comum. Nesse sentido, o Concílio Vaticano II foi apresentado como uma referência importante, especialmente por seu convite à Igreja para retornar às fontes primeiras da fé e, a partir delas, responder aos desafios de cada tempo.

A experiência dos discípulos de Emaús, também contemplada durante o encontro, ajudou a iluminar esse caminho. Ao reconhecerem Cristo no partir do pão, eles retornaram à comunidade renovados pela fé e pela coragem para anunciar a Ressurreição. A imagem reforça o convite para que os cristãos também retornem às fontes da fé para encontrar nelas os valores necessários à construção de um mundo mais solidário e humano.
Nesse percurso, três palavras ganharam destaque: conversar, escutar e interpretar.

Conversar, explicou o sacerdote, não significa apenas falar e ouvir sucessivamente. A verdadeira conversação pressupõe abertura para que diferentes vozes sejam acolhidas e somadas na busca de soluções que superem a polarização.
Já a escuta exige uma atitude de abertura e empatia. Padre Clóvis recordou o significado atribuído à palavra “escutar” em hebraico, relacionado à ideia de “deitar o ouvido no coração do outro”. A imagem de São João junto ao peito de Jesus ajuda a expressar essa atitude: escutar é aproximar-se do outro e reconhecê-lo como irmão, inclusive como alguém por meio de quem Deus também pode falar.

Diante da multiplicação das falas e da velocidade com que as informações circulam, surge a necessidade do discernimento. Por isso, a terceira palavra destacada foi interpretar: olhar para a realidade, compreender suas dinâmicas e, iluminados pela fé, discernir como agir em favor de todos.
A sinodalidade também esteve no centro da reflexão. Resgatada com força no vocabulário eclesial, especialmente durante o pontificado do Papa Francisco, a expressão recorda uma dimensão presente desde os primeiros tempos da Igreja: a necessidade de caminhar juntos e buscar, coletivamente, caminhos para o bem comum.

Em meio a um mundo que se desfaz rapidamente enquanto outro se constrói quase imediatamente, o desafio está em não perder os espaços de escuta genuína e diálogo. Nesse contexto, a Palavra de Deus e os documentos da Igreja foram apresentados como fontes capazes de reconectar os cristãos com a origem da fé e com valores que permanecem atuais, mesmo diante das mudanças observadas nesse novo tempo.
Padre Clóvis também ressaltou que o Evangelho atravessa culturas e épocas. A mensagem de Jesus não está limitada a um determinado período histórico, mas permanece capaz de iluminar diferentes realidades e orientar a vivência do amor, da fraternidade, da solidariedade e do compromisso com o próximo.

A reflexão contou ainda com referências a documentos da Igreja, apresentados como importantes subsídios para compreender a realidade social a partir dos princípios do Evangelho. Entre eles, foram mencionados Magnifica Humanitas e Dilexit Te, além das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2026-2032), reforçando o compromisso com a construção de um humanismo cristão em meio aos desafios da era presente.
Ao final, padre Clóvis compartilhou um texto de Frei Betto com orientações práticas sobre a vivência da religião, reforçando que a fé precisa ultrapassar o espaço da celebração e alcançar as escolhas e atitudes do cotidiano.

Entre oração, música, Bíblia, documentos da Igreja e partilhas, o encontro reforçou a importância de viver uma fé comprometida com a realidade, sem abrir mão dos valores transmitidos por Cristo. Afinal, somos uma comunidade de encontro feita para o encontro e, diante de um mundo em constante transformação, somos chamados a caminhar juntos, escutar com o coração e discernir caminhos para a construção de uma sociedade mais humana, solidária e acolhedora.
Silvana Lima (Pascom), com a colaboração de Ana Cecília Bastos (Grupo de Formação Paroquial) e Rosana Oliveira (CPP e Pascom)
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