XXVI Encontro Nacional de Reitores de Santuários: um convite para acolher, evangelizar e anunciar Cristo
Em clima de #tbt, vamos lembrar de um momento especial para quem está em contato direto e diário com peregrinos e peregrinas do Brasil inteiro. Entre os dias 24 e 28 de agosto, os Santuários de Aparecida e Frei Galvão, em Guaratinguetá (SP), sediaram o XXVI Encontro Nacional de Reitores de Santuários, reunindo mais de 160 participantes entre sacerdotes, religiosas e leigos. Com o tema “Identidade, Vocação e Missão dos Santuários” e o lema “Evangelização e Estratégia Digital”, o encontro proporcionou dias de formação, convivência, partilha e, sobretudo, de renovação do compromisso daqueles que têm a responsabilidade de cuidar desses lugares sagrados.

No Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia, os santuários são apresentados como lugares de peregrinação, oração, conversão e evangelização, condições que nortearam a definição dos assuntos refletidos durante o evento.

Com o objetivo de aprofundar a gestão e fortalecer a vocação de acolhida destes locais de fé, o encontro foi muito mais do que uma sucessão de palestras, reunindo, na intensa semana de atividades, oportunidades de olhar para a missão dos gestores a partir de uma pergunta central: como tornar esses espaços cada vez mais capazes de favorecer o encontro com Deus? Essa pergunta, inclusive, esteve presente em todas as formações, mostrando que um santuário não existe apenas para receber pessoas, mas para acolhê-las, escutá-las e ajudá-las a aproximar-se de Jesus.

A programação teve início no próprio Santuário Nacional, com a Missa de Abertura presidida pelo Arcebispo de Aparecida, Dom Mário Antônio da Silva, seguida de uma visita guiada com o objetivo de levar os participantes a perceber tudo o que o santuário representa para milhões de brasileiros que para lá peregrinam durante todo o ano.
O santuário como tenda do encontro
A abertura dos trabalhos ficou sob a responsabilidade de Dom Leomar Antônio Brustolin, Arcebispo Metropolitano de Santa Maria (RS), que abriu as reflexões no dia seguinte (25) com a palestra “Santuário: tenda do encontro e da missão”.

Diante da influência da comunicação no mundo atual, ressaltada pelo bispo como provocadora de muitas transformações sociais, Dom Leomar recordou a importância do seguimento das Diretrizes da Ação Evangelizadora para que Cristo continue a ocupar a centralidade de uma Igreja que evangeliza de forma sinodal. Os santos e Nossa Senhora dão nome e identidade a muitos santuários, mas apontam para alguém maior que eles: o próprio Jesus.

Por isso, voltar a este primeiro amor é essencial, já que é por causa dele que colocamos nossos dons e talentos a serviço do Evangelho, vivido na missão cotidiana de cada santuário.
Dom Brustolin também lembrou que os santuários estão inseridos em um mundo real, com suas dores, conflitos, necessidades e desafios e que cuidar das pessoas também significa cuidar da maneira como são recebidas, transformando assim cada lugar em verdadeira “tenda do encontro”, onde todos possam chegar como estão no momento e encontrar alguém disposto a escutá-los.

Nesse sentido, comparou o santuário a um “hospital de campanha” voltado para o encontro “emergencial” com Cristo, em um ambiente que esteja perfeitamente alinhado à forma como cada local quer ser visto pelos fiéis. Para tanto, salientou que os pontos de atenção não se limitam à estrutura física ou à capacidade de comunicação existente, mas estão, sobretudo, na experiência que cada pessoa leva consigo após visitar o santuário. Com poucas frases, o bispo sintetizou essa compreensão:
“O Santuário é santo porque Deus toma a iniciativa de estar ali. É o Santo dos Santos que está lá. É espaço transformado pela presença divina”, frisou ele, mostrando que, se Deus toma a iniciativa de estar presente, tudo precisa apontar para Ele.
Na recomendação de Dom Brustolin, essa visão precisa partir dos próprios reitores, que, mais do que estudar sobre Deus, precisam favorecer uma experiência com Ele, pensando em cada detalhe do lugar: da liturgia ao atendimento da confissão, já que tudo revela a maneira de tratar cada pessoa.
Se a beleza do ambiente evangeliza, a organização comunica e a hospitalidade anuncia, como ressaltou ele, complementando sua mensagem na mesa-redonda realizada após a palestra. Ao responder aos questionamentos sobre os desafios da evangelização no mundo atual, o bispo destacou que o relacionamento humano continua sendo um dos aspectos mais importantes a serem considerados. Nesse sentido, convidou os sacerdotes a voltarem o olhar para a própria humanidade, reconhecendo nela o ponto de partida para construir relações pautadas pela empatia, pelo acolhimento e pelo respeito mútuo, conforme o ensinamento de Cristo.

Tudo isso para que o santuário cumpra com a sua finalidade maior: ajudar no acolhimento e na formação das pessoas para que, ao enviá-las novamente para suas famílias, suas comunidades e para os lugares onde vivem, levem consigo aquilo que experimentaram como experiência de fé.
O santuário como lugar de gestão e missão
Essa mesma preocupação esteve presente na última atividade do dia: a palestra de Solange Parron, “Orquestrar para Evangelizar: da Identidade à Gestão que Sustenta a Missão”.
A imagem da orquestração foi adotada aqui para ajudar na compreensão de uma grande verdade: para que a música aconteça, diferentes instrumentos precisam estar afinados e seguir uma mesma partitura. Nos santuários não é diferente. E, assim como acontece com o alcance de uma boa música, a missão não consiste apenas em acolher quem já está perto, mas também abrir caminhos para que aqueles que ainda estão distantes possam chegar.

E isso exige organização. Não aquela que engesse o propósito, mas a que nasce da escuta, procurando responder às necessidades reais das pessoas.
Nesse quesito, uma pergunta atravessou essa reflexão:
“Por que meu santuário existe?”
Respondê-la durante a palestra ajudou os reitores e demais responsáveis na compreensão da identidade de cada santuário, em torno da qual as ações devem acontecer.
Sustentabilidade, partilha, planejamento, delegação e uso inteligente da tecnologia apareceram ainda como instrumentos a serviço da missão, já que uma boa intenção, quando não encontra organização, pode perder força.
E novamente a acolhida esteve em destaque, mostrando que toda estrutura, toda campanha, todo planejamento e toda ferramenta precisam contribuir para que uma pessoa seja melhor recebida e encontre mais facilmente o caminho para Cristo.

Nesse contexto, a apresentação do site Santuários do Brasil representou uma possibilidade de dar continuidade a tudo que foi refletido durante o evento, por meio do acompanhamento de notícias e do compartilhamento de experiências vividas em cada santuário, que deverão ser descritas no espaço interativo do novo meio de comunicação.
Cuidar da segurança também é proteger a missão
Até mesmo uma palestra aparentemente mais técnica mostrou sua relação com a missão.
Luísa Vieira, Gerente de Tecnologia da Informação do Santuário Nacional, falou sobre “Segurança Digital: riscos e ameaças no dia a dia do Santuário”, no dia 26 de agosto.

A especialista mostrou que segurança não diz respeito apenas ao uso da tecnologia, mas também à cultura que deve ser construída a partir de escolhas rotineiras, como o cuidado com senhas, computadores, celulares, documentos, arquivos, acessos a informações e outros quesitos que, no final das contas, fortalecem a confiança que as pessoas depositam na Igreja Católica.

Amparada por estatísticas compartilhadas durante a palestra, fornecidas a partir de pesquisas especializadas, Luísa destacou o alto grau de credibilidade da instituição, lembrando que manter esses índices é responsabilidade de todos nós, cristãos, especialmente no que diz respeito à guarda e tratamento de dados sensíveis de devotos e fiéis, colocados diariamente sob a guarda dos santuários.
Nesse sentido, ela frisou que pequenas atitudes podem evitar grandes problemas e que, justamente por algumas rotinas parecerem simples e serem realizadas de forma corriqueira, precisamos ter sobre cada uma delas um olhar mais atento, para evitar dificuldades futuras.
A frase que sintetizou a reflexão merece ser guardada:
“Comunicar com segurança também é proteger a missão. As contas do Santuário são patrimônio”, lembrou a palestrante, que buscou mostrar uma verdade inquestionável: cuidar dos dados, da privacidade, da credibilidade e da confiança também é uma forma de acolher e cuidar das pessoas.
Tecnologia para aproximar, não para substituir
A última grande palestra, conduzida por Thaís Brant no dia 27, trouxe novamente a comunicação para o centro da reflexão: “Do Altar à Comunicação na Era Digital: Estratégias Digitais para Evangelizar, fortalecer a devoção e arrecadação de recursos”.

Como ressaltou a estrategista, a missão não mudou. O que mudou foi a maneira como as pessoas se relacionam com o mundo. Por isso, é preciso aprender a utilizar as ferramentas disponíveis sem permitir que elas determinem os rumos da missão. Tecnologia é meio, não fim, como lembrou.
Justamente por isso, a pergunta proposta, inspirada na encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, foi provocadora: “estamos construindo uma torre de Babel ou reconstruindo as muralhas de Jerusalém?”, questionou a palestrante.

A resposta indica se a tecnologia é usada para otimizar o tempo, organizar processos, conhecer melhor o público, facilitar a gestão, ampliar a comunicação e aproximar pessoas ou se ela oferece o risco de substituir o encontro humano.
Essa questão favorece a grande constatação ressaltada por Thaís: quanto mais a tecnologia puder facilitar aquilo que é repetitivo e operacional, mais tempo poderá ser dedicado àquilo que nenhuma máquina consegue fazer como o ser humano faz: acolher, escutar, olhar nos olhos, compreender e cuidar, mostrando que não basta alcançar mais pessoas. É preciso criar vínculos.
“Quando a comunicação não vira relacionamento, nós conversamos com muitos e nos relacionamos com poucos”, afirmou Thaís, dona de um currículo recheado de vivências em marketing e negócios, tanto na esfera nacional como na internacional.
Essa afirmação também vale para a maneira como os santuários lidam com os recursos materiais, já que a doação, necessária para a manutenção dos espaços, representa uma expressão de gratidão e confiança dos fiéis, o que valida a máxima defendida pela convidada: “é preciso dar primeiro e pedir depois”. Por isso, transparência, prestação de contas e clareza sobre a utilização dos recursos também fazem parte da missão, como sugeriu ela.
Dessa forma, a lógica proposta para gerir recursos materiais e humanos torna-se bastante simples: conhecer, cuidar, prestar contas e multiplicar, usando de criatividade, relacionamento e ética, ponderou.

Em meio à palestra, o grupo pôde acompanhar o lançamento do livro “Profetas da Esperança dos Pobres – 27 de Agosto: Memória e Esperança de Três Bispos”, organizado por John Sieh e Caio Henrique Esponton. A obra trouxe ao evento uma dimensão de memória e esperança, a partir de uma curiosidade: a data de falecimento comum aos pastores que dão vida ao livro, cuja história se relacionou com os pobres, com a justiça e com o compromisso cristão.

Inserido em um encontro que refletiu sobre identidade, vocação e missão, esse momento ajudou a recordar que a gestão não passa apenas pelo cuidado com as estruturas. Ele lembrou que toda evangelização precisa encontrar expressão no cuidado com aqueles que sofrem.
O povo de Deus no centro
Foi justamente essa convergência de reflexões que tornou o encontro tão rico. A programação reuniu temas que poderiam parecer distantes — gestão, marketing, comunicação, segurança digital, inteligência artificial, redes sociais e sustentabilidade —, mas todos acabaram apontando para uma mesma direção:
como cuidar melhor das pessoas que Deus coloca diante de nós por meio dos santuários.

A sequência de palestras incluiu ainda momentos de exposição de patrocinadores, que tiveram espaço para apresentar novidades e soluções oferecidas para o segmento católico, enriquecendo a experiência e mostrando que inovação e fé podem caminhar juntas quando a tecnologia está submetida a um propósito maior.
Também fez parte da programação a visita ao Santuário Frei Galvão, onde foi celebrada a Santa Eucaristia e apresentada a história do primeiro santo brasileiro, junto com as obras de expansão do santuário e das experiências de gestão do lugar.

No último dia de formações, os participantes tiveram acesso a workshops sobre redes sociais, inteligência artificial e educação da fé das futuras gerações, além da visita técnica aos setores-chave da Família dos Devotos.
Assim como as diferentes formações, a tradição popular encontrou espaço no evento, durante o jantar cultural realizado no Convento Redentorista, que contou com a animação de artistas locais e do Pe. Alan Zuccherato, C.Ss.R., apresentador do programa “Sábado no Santuário”, exibido pela TV Aparecida.
Diante da Mãe
Depois de tantos conteúdos, perguntas e aprendizados, a finalização dos trabalhos levou novamente os participantes ao Santuário Nacional, no último dia do evento (28), onde o atual reitor, Pe. Eduardo Catalfo, C.Ss.R., e o Frei Diego Atallino de Mello, OFM, reitor do Santuário Frei Galvão, ressaltaram a importância do encontro, durante a Missa de Encerramento.

Padre Eduardo falou sobre a representatividade expressiva observada nesta última edição, o que contribuiu para uma maior troca de experiências, enriquecendo sobremaneira as discussões em torno do tema escolhido.
Já Frei Diego lembrou da condição primeira de todo e qualquer reitor e reitora: antes de serem gestores, são peregrinos e filhos daquela que, de forma inesperada, emocionou a todos com sua presença.

No momento de oração pessoal, previsto na programação, a imagem original da Mãe Aparecida foi entronizada pelas mãos do Pe. Alan, na Capela dos Apóstolos, onde foi realizada a celebração. A acolhida da imagem tocou profundamente algumas pessoas, que se emocionaram até as lágrimas diante da possibilidade de estar tão próximas da Padroeira do Brasil, podendo contemplá-la e tocá-la por breves instantes, a ela prestando suas homenagens.
Entre gestos de carinho, respeito e devoção, o beijo no seu manto tornou-se uma imagem especialmente significativa, registrada pela equipe de comunicação do Santuário Nacional e disponibilizada no site Santuários do Brasil.
Depois de dias falando sobre a experiência do encontro, o evento terminava justamente diante daquela que, para milhões de brasileiros, é sinal de uma presença materna que acolhe, consola e conduz para Cristo.
“De Aparecida ninguém sai de mãos vazias.”
Essa é a promessa que gira em torno do Santuário Nacional e voltar de um encontro como esse não significa simplesmente trazer novas ideias. Significa trazer perguntas que podem ajudar a transformar a realidade.

Para Pe. Casimiro Malolepszy, C.Ss.R., pároco da Paróquia da Ressurreição do Senhor, em Salvador, é necessário caminhar juntos numa experiência que pode gerar frutos valiosos e superação de desafios que são comuns.

Com o apoio da Pastoral da Comunicação (Pascom), representada no encontro pela coordenadora Silvana Lima, ele ressaltou a necessidade de acompanhar as demandas do novo tempo.
"Esperamos trabalhar de forma cada vez mais atualizada, aproveitando os recursos do meio digital", afirmou.

O ex-pároco, Pe. Roque Silva, C.Ss.R, também esteve presente no evento, na condição de atual coordenador do Santuário de Bom Jesus da Lapa, na Bahia.

Nos santuários de São Lázaro e São Roque e de Nossa Senhora Educadora, que compõem duas das sete comunidades da paróquia, cuidar dos detalhes que favorecem a experiência de Deus, fortalecer a comunicação, utilizar melhor as ferramentas digitais, organizar processos e, principalmente, fazer com que cada ação tenha um propósito evangelizador dão pistas de como esses frutos podem ser transformados em gestos concretos.

Tudo isso para oferecer a quem chega à paróquia, por meio dos santuários, portas abertas, pessoas disponíveis, beleza, organização, escuta e, acima de tudo, uma comunidade que aponta para Cristo e Sua Copiosa Redenção, como pede a Congregação do Santíssimo Redentor, responsável pela administração da comunidade paroquial.

As experiências que serão partilhadas até o próximo encontro regional, que acontece em Juazeiro, na Bahia, em agosto de 2027, e o XXVII Encontro Nacional de Reitores, cuja sede escolhida será a cidade de Curitiba, no Paraná, em 2028, serão fundamentais para a construção de mais um momento de crescimento na espiritualidade e na gestão.
Até lá, caberá aos participantes do XXVI Encontro Nacional dos Reitores de Santuários fazerem de cada espaço sagrado um verdadeiro lugar de encontro com o Senhor, de vivência da fé, de acolhida e de anúncio da Boa Nova que é Jesus, para que, assim como acontece em Aparecida, ninguém saia de mãos vazias.
Silvana Lima (Pascom)



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